ESPIRITUALIDADE

O AMOR É DESIGUAL

Muita gente tem vergonha de admitir, mas a realidade é que todos nós temos preferências no amor. Não amamos todas as pessoas por igual. Não me refiro a tipos diferentes de amor, mas ao mesmo amor caridoso. Nós damos preferência a certas pessoas. Essas preferências são erradas?

Imagine que numa grande tragédia (como um tsunami), uma mãe tenha que escolher entre salvar seu filho e salvar uma criança desconhecida. Qual ela deve escolher? As duas decisões são iguais? Caso escolha a criança desconhecida, o que deverá dizer ao seu filho, caso ele sobreviva?

Ou imagine que, quando vai visitar sua mãe num hospital, um filho encontre outras várias senhoras na mesma situação. Ele deve dedicar tempo igual a cada uma delas ou deve dar preferência à sua própria mãe?

O próprio Cristo tinha um “discípulo amado”, significando com isso que havia algum tipo de preferência, sem que ele precisasse excluir ou odiar os demais. O apóstolo Paulo trata de preferência: “façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl 6:10).

Mas Cristo ensina que devemos amar mesmo pessoas desconhecidas, de uma nação julgada inimiga (Parábola do Bom Samaritano). O amor pelos inimigos é um ensinamento fundamental. Nossa hospitalidade deve superar todo tipo de pensamento contrário à dignidade humana (ex: racismo).

Essa preferência sem exclusão é chamada na teologia cristã de “ordo amoris” (ordem do amor), significando que há pessoas às quais devemos maior amor. O exemplo mais natural é o amor dos filhos pelos pais e dos pais pelos filhos, ou dos cônjuges entre si.

Essa prática de diferenciação é instintiva, e isso pode levar algumas pessoas a pensarem que, em razão da Queda, não devemos confiar nos nossos instintos. Mas o que há de caído nos nossos instintos não é a preferência, mas a exclusão, o ódio.

Isso nos ajuda a entender a opção de Deus pelos pobres. Deus ama a todos nós, mas há claramente uma preferência de Deus pelos mais necessitados, pelos que, aos olhos humanos, são pobres deste mundo.

O amor envolve vários aspectos:
• desejamos o bem (benevolência)
• praticamos o bem (beneficência)
• temos apreço (afeição)
• desejamos proximidade (união)

Quem acha que devemos amar a todos por igual acerta em parte, porque devemos querer o mesmo bem para todos: sem prejuízo da justiça, queremos a vida eterna para todos, não queremos nenhum mal para ninguém.

Mas amor não é só querer. Não é só decisão. Apenas querer o bem não é todo o amor, mas uma abstração dele. Amor envolve ação, e, nas condições das nossas limitações, a ação é e será sempre desigual. Então a beneficência já não será a mesma, mas limitada. Precisaremos escolher. Quem sofreu violência grave pode ter muita dificuldade em desejar proximidade com quem lhe feriu.

Então a “ordo amoris” não é só uma doutrina cristã tradicional. Ela é uma doutrina muito humana, muito realista, que nos reconhece onde estamos e nos ensina a avançar para um amor maior. As pessoas a quem amamos devem se tornar, não um limite, mas uma escola do amor.

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